O acesso a capital em condições compatíveis com a realidade dos negócios de impacto esteve entre os temas discutidos no 6º Encontro Impactos Positivos, realizado em 24 de setembro, na FIAP, em São Paulo.
O evento reuniu empreendedores, investidores, empresas e organizações ligados ao ecossistema de impacto e contou com a participação de Kamilla Bódi, coordenadora de Investimentos da Yunus Negócios Sociais.
A programação também marcou o ciclo de premiação do 6º Prêmio Impactos Positivos, voltado ao reconhecimento de iniciativas que combinam atividade econômica e geração de impacto socioambiental. Nesta edição, os vencedores foram Aventura de Construir, na categoria Dinamizador; Pesqueiro Sustentável, em Ideação; TrackGains, em Operação; e Parque Ecológico Rio Formoso, em Tração/Escala.
Durante sua apresentação, Kamilla retomou a origem do modelo de microcrédito associado ao economista Muhammad Yunus, em Bangladesh. A experiência começou nos anos 1970, quando Yunus passou a conceder pequenos empréstimos a pessoas que não encontravam acesso ao sistema financeiro tradicional, em especial mulheres de baixa renda que desenvolviam atividades produtivas.
A experiência contribuiu para a criação do Grameen Bank, instituição que se tornou referência internacional em microcrédito. Em 2006, Muhammad Yunus e o Grameen Bank receberam conjuntamente o Prêmio Nobel da Paz pelo trabalho relacionado ao desenvolvimento econômico e social a partir das populações de baixa renda.
A trajetória também está na origem do conceito de negócio social difundido por Yunus: empresas que utilizam mecanismos de mercado e geração de receita para enfrentar problemas sociais ou ambientais. No Brasil, essa lógica orienta diferentes frentes de atuação da Yunus Negócios Sociais.
“São empresas que geram receita, geram lucro, mas, ao mesmo tempo, têm a missão de resolver algum problema social”, afirmou Kamilla Bódi durante o encontro.
Economista formada pela FEA-USP, Bódi teve passagens pela Vetor Brasil e Saint Paul e experiência em gestão de fundos de private equity. Durante a universidade, foi diretora do processo de seleção do Cursinho FEA-USP, iniciativa voltada a estudantes de baixa renda. Ela ingressou na Yunus em 2022 e atua na prospecção de negócios, condução de due diligence e execução de processos de investimento.
Na área de investimentos, a organização mantém programas de crédito direcionados a empreendedores e empreendedoras sociais em diferentes regiões do país. O objetivo, segundo Bódi, é oferecer uma estrutura financeira mais compatível com o estágio e o ritmo de crescimento desses negócios.
“A gente consegue abarcar todo o país querendo oferecer um crédito mais justo, paciente. São créditos de longo prazo, com uma taxa de juros abaixo da taxa de mercado para o tamanho de negócio que a gente investe, porque a ideia é apoiar no crescimento e na escala desses negócios”, disse.
A estratégia procura responder a uma questão recorrente no mercado de impacto: empresas que buscam solucionar problemas sociais e ambientais precisam de capital para crescer, mas nem sempre encontram condições de financiamento adequadas ao seu porte, estágio de desenvolvimento ou modelo de receita.
O apoio financeiro é combinado com acompanhamento dos empreendedores. Segundo Kamilla, a Yunus mantém uma base de mais de 100 mentores e realiza treinamentos trimestrais com as empresas investidas.
“A ideia realmente é conseguir fomentar esse tipo de empreendedorismo e ver nossos negócios crescerem cada vez mais aqui no Brasil”, afirmou.
A atuação da Yunus também alcança grandes empresas interessadas em desenvolver estratégias de impacto. Entre as iniciativas estão programas de inovação aberta, aceleração de startups de impacto e conexão entre negócios sociais e corporações.
Um dos objetivos dessa aproximação é inserir empresas de impacto nas cadeias de fornecedores de grandes companhias. Nesse modelo, a área de compras deixa de ser analisada apenas pelo custo ou pela eficiência operacional e passa a ser considerada também pelo potencial de direcionar recursos para fornecedores que produzam resultados sociais ou ambientais.
O tema dialoga com o perfil das iniciativas reconhecidas pelo Prêmio Impactos Positivos. Os quatro vencedores representam diferentes estágios e áreas de atuação.
A Aventura de Construir atua no fortalecimento de microempreendedores e na inclusão produtiva de populações de baixa renda. O Pesqueiro Sustentável, de Porto do Mangue, no Rio Grande do Norte, desenvolve uma iniciativa relacionada à pesca artesanal e à economia azul. A TrackGains, de Mogi das Cruzes, em São Paulo, trabalha com infraestrutura de dados aplicada à mensuração e rastreabilidade de projetos socioambientais. O Parque Ecológico Rio Formoso, de Bonito, em Mato Grosso do Sul, atua na interseção entre turismo, conservação ambiental e biodiversidade.
Para a economista, o ciclo de premiação se conecta ao trabalho desenvolvido pela Yunus ao colocar empreendedores em contato com organizações, empresas e outros integrantes do ecossistema de impacto.
“O prêmio faz muito sentido com a nossa atuação, porque é um momento de reconhecimento e de conexões com esses empreendedores que estão inovando tanto”, afirmou.
O crescimento desse ecossistema amplia uma discussão que vai além da identificação de projetos socioambientais. O desafio passa pela capacidade de transformar iniciativas em negócios financeiramente sustentáveis e, ao mesmo tempo, criar instrumentos de capital compatíveis com empresas que ainda estão construindo escala.
Nesse cenário, crédito de longo prazo, acompanhamento técnico, redes de mentoria e integração às cadeias de grandes empresas formam parte de uma infraestrutura financeira e empresarial em desenvolvimento. O avanço desse mercado dependerá não apenas do surgimento de novos negócios de impacto, mas também da capacidade de conectá-los a capital, compradores e mecanismos que permitam crescimento sem dissociar resultado econômico da finalidade social ou ambiental.