Entre a pressa da IA e o impacto de longo prazo, empreendedores enfrentam decisões sem respostas prontas

Filósofa e executiva de tecnologia, Anna Flavia Ribeiro Queiroz diz que o desafio não é prever o que a inteligência artificial fará, mas assumir responsabilidade pelas escolhas enquanto seus efeitos a

Entre a pressa da IA e o impacto de longo prazo, empreendedores enfrentam decisões sem respostas prontas

Empresas estão incorporando inteligência artificial em uma velocidade maior do que sua capacidade de antecipar todas as consequências dessa adoção. Para quem empreende, a questão já não é apenas decidir se deve usar a tecnologia, mas como fazê-lo quando seus efeitos sobre trabalho, comportamento, sustentabilidade e relações humanas ainda estão sendo construídos.

Foi a partir desse conflito que a filósofa e executiva de tecnologia Anna Flavia Ribeiro Queiroz conduziu sua participação no 6º Encontro Impactos Positivos, realizado em 24 de setembro, na FIAP, em São Paulo, que neste ano teve como tema:

Inteligência Artificial. Inteligência humana. Impacto coletivo.

“Faz parte da carga do impacto positivo que nós convivamos com a ambivalência”, afirmou. “Nem sempre a causa e a consequência são aquelas que nós desejamos.”

Diretora e professora da Pós-Graduação da SPTech School nas áreas de IA, Cyber, Dados e Business, Anna Flavia Ribeiro Queiroz passou 22 anos trabalhando com tecnologia. Também é pesquisadora do Instituto Inutech em criatividade humana, inovação e tendências relacionadas à Web 3.0 e inteligência artificial. Sua trajetória executiva inclui atuação em cyber, digital, cloud, marketing, outsourcing e consultoria.

A combinação entre filosofia e tecnologia sustenta uma questão que atravessou sua apresentação: O Futuro entra pelo Balcão. 

Inovações não carregam resultados positivos ou negativos de maneira automática. Seus efeitos dependem da forma como são desenvolvidas, distribuídas e utilizadas, segundo Ana Flávia Ribeiro Queiroz.

Anna Flavia Ribeiro Queiroz recorreu ao químico Fritz Haber para ilustrar o argumento. O trabalho de Haber com a síntese da amônia abriu caminho para a produção industrial de fertilizantes. O cientista também participou do desenvolvimento e uso de armas químicas na Primeira Guerra Mundial.

A mesma capacidade científica produziu consequências muito diferentes.

“O futuro não está dado, assim como o passado também não está escrito”, disse Anna Flavia Ribeiro Queiroz.

A discussão ganha peso para empreendedores porque a inteligência artificial avança justamente sobre uma característica que humanos durante muito tempo trataram como território próprio: a capacidade de produzir linguagem, imagens, cálculos e outras formas de trabalho cognitivo.

Anna Flavia Ribeiro Queiroz argumenta que a IA poderá gradualmente deixar de ser percebida como uma ferramenta separada. Sistemas inteligentes tendem a ser incorporados a produtos, serviços e infraestrutura até se tornarem parte menos visível das atividades cotidianas.

Isso não significa, segundo a professora, que seja possível prever com segurança o destino da tecnologia.

“Para empreendedores e para empreendedoras, o primeiro ponto que a gente tem que ter é calma”, afirmou.

A executiva também citou o filósofo Roman Krznaric, autor de The Good Ancestor, ao discutir uma pergunta pouco compatível com ciclos empresariais de curto prazo: como uma decisão tomada hoje repercutirá sobre pessoas que viverão várias gerações adiante?

Esse horizonte aproxima inteligência artificial da discussão sobre sustentabilidade. Enquanto parte do mercado concentra atenção na corrida tecnológica, questões relacionadas a recursos naturais e mudanças nos modelos de produção permanecem sem solução automática.

“Não tenham medo da tecnologia, mexam muito com a tecnologia”, disse Anna Flavia Ribeiro Queiroz. “Ela é só uma faceta da vida.”

A apresentação integrou a programação do 6º Encontro Impactos Positivos, iniciativa criada por Gisele Abrahão, fundadora e CEO da plataforma Impactos Positivos, que também apresentou o evento.

A edição marcou ainda o 6º Prêmio Impactos Positivos. Foram reconhecidos Aventura de Construir, na categoria Dinamizador; Pesqueiro Sustentável, em Ideação; TrackGains, em Operação; e Parque Ecológico Rio Formoso, em Tração/Escala.

Para empresas, a questão levantada pela expansão da IA talvez seja menos tecnológica do que administrativa: como tomar decisões quando a capacidade de implantação avança mais rápido do que o conhecimento sobre suas consequências.

A história da inovação mostra que boas intenções não garantem bons resultados. A diferença, agora, é que empresas dispõem também da experiência acumulada por tecnologias anteriores. Para quem empreende, ignorar essa memória pode ser tão arriscado quanto ignorar a próxima tecnologia.

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