Economia circular desafia empresas a preservar o valor de materiais antes do descarte

Ana Borba, fundadora da Lixiki, argumenta que parte do problema dos resíduos começa no momento em que empresas decidem que um material deixou de ter utilidade

Economia circular desafia empresas a preservar o valor de materiais antes do descarte

Uma empresa pode investir em metas ambientais, fornecedores responsáveis e compromissos ESG e, ainda assim, perder o controle sobre materiais assim que termina um evento, uma campanha ou o ciclo inicial de utilização de um produto. Banners, tecidos e peças com identidade corporativa podem passar rapidamente de ativos comprados pela companhia a resíduos cujo destino ela já não acompanha.



Para Ana Borba, fundadora da Lixiki, essa mudança aparentemente simples revela um problema maior: a decisão de chamar alguma coisa de lixo.

“Esses resíduos que são encarados como resíduos não são resíduos, na verdade. Quem transforma o material em resíduo somos nós”, afirmou Ana Borba durante o 6º Encontro Impactos Positivos, realizado em 24 de setembro, na FIAP, em São Paulo, com o tema: Inteligência Artificial. Inteligência humana. Impacto coletivo.

Engenheira civil, natural do Recife e radicada em São Paulo, Ana Borba fundou a Lixiki em 2008. A empresa reaproveita materiais destinados ao descarte para transformá-los em produtos de design e atividades de ecoeducação. A produção envolve uma rede de pessoas empreendedoras formada majoritariamente por mulheres.

A experiência colocou a empreendedora diante de um problema operacional recorrente. Eventos corporativos podem mobilizar dezenas de fornecedores e trabalhadores durante poucos dias. Encerrada a programação, materiais desenvolvidos especificamente para aquele momento perdem sua função original, embora não tenham necessariamente perdido seu valor.

“Se você descarta, é resíduo. Se você não descarta, ele é um material. E aí ele pode ser um material nutriente de um novo processo”, disse Ana Borba.

É nesse intervalo que a economia circular tenta alterar a lógica tradicional de produção. Em vez da sequência extrair, fabricar, consumir e descartar, o objetivo é manter produtos e matérias-primas circulando pelo maior tempo possível.

Para empresas, isso desloca a discussão ambiental para uma etapa anterior à reciclagem. Se o destino de determinado material só começa a ser pensado depois que ele se transforma em lixo, parte de seu valor econômico já pode ter sido perdida.

“A economia circular é desenhar um mundo novo onde o lixo não existe”, afirmou Ana Borba.

A fundadora da Lixiki também chama atenção para o fator tempo. Na natureza, decomposição e regeneração acontecem em ciclos. Modelos econômicos, por outro lado, foram estruturados para acelerar produção e consumo.

“A economia circular precisa de tempo para acontecer”, disse.

Ana Borba atua há anos na discussão sobre reutilização de materiais, sustentabilidade, ESG e economia circular. Formada em economia circular pela Ideia Circular, é cofundadora e diretora do Instituto Noz, coanfitriã da Rede Noz e uma das anfitriãs do podcast Ciclicamente. Também idealizou a Oficina Manu e a Ciranda de Tudo, metodologia de comunicação socioambiental para crianças, jovens e educadores.

A discussão apresentada na FIAP teve uma aplicação concreta. A Lixiki recebeu o convite para reaproveitar banners do próprio Encontro Impactos Positivos, prolongando a utilização de materiais que poderiam encerrar seu ciclo junto com o evento.

Criado por Gisele Abrahão, fundadora e CEO da plataforma Impactos Positivos, o encontro chegou à sexta edição reunindo empreendedores e organizações relacionados a negócios de impacto. Gisele Abrahão também esteve à frente da apresentação da programação.

O evento sediou ainda o 6º Prêmio Impactos Positivos. Os reconhecidos foram Aventura de Construir, na categoria Dinamizador; Pesqueiro Sustentável, em Ideação; TrackGains, em Operação; e Parque Ecológico Rio Formoso, em Tração/Escala.

A economia circular transforma, assim, uma discussão ambiental em uma questão de eficiência econômica. Cada matéria-prima descartada carrega energia, trabalho, transporte e capital empregados para produzi-la.

Para as empresas, o próximo estágio da sustentabilidade pode depender menos de descobrir o que fazer com o lixo e mais de evitar que recursos com utilidade econômica recebam esse nome. A diferença parece semântica, mas muda a pergunta central: em vez de decidir onde descartar um material, passa-se a decidir quem poderá utilizá-lo depois.

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